Em resumo
- Na grande maioria dos casos, problemas de pele nos cavalos do Brasil não são causados por fungos. O que vemos mais frequentemente são dermatites por manejo deficiente e produtos errados; a micose verdadeira (dermatofitose, rigworm) é bem mais rara do que se imagina.
- No clima tropical do Brasil, bactéria causa mais problema de pele do que fungo. A dermatofilose, o “gervão”, é bacteriana e piora quando tratada com antifúngico.
- Iodo, água sanitária, clorexidina em excesso, álcool, sabão de coco e pinho sol são as receitinhas caseiras comuns, e que mais prejudicam. Hoje já sabemos que devem ser evitados, por serem agressivos para tecido vivo: destroem a microbiota de defesa e o manto hidrolipídico, e alimentam o ciclo das “perebas e cascas” que sempre voltam.
- Tratar de verdade inclui fortalecer a pele: manejo de banho e secagem, limpeza que respeita o pH e regeneração da barreira cutânea. E integrar o veterinário quando a lesão não fecha, ou tem pus e dor extensa, sempre.
Neste artigo
- Como saber se é fungo mesmo?
- Por que, no Brasil, quase nunca é fungo?
- O que o iodo, a clorexidina e coisas como pinho sol realmente fazem na pele?
- Por que os corticoides "atenuam" e depois pioram tudo?
- Como tratar de verdade, sem destruir a pele do cavalo?
- Perguntas frequentes
Se o seu cavalo está com falhas de pelo, crostas, caspas e feridinhas superficiais que não cicatrizam, a resposta mais provável vai contra o que todo mundo acha: na grande maioria dos casos, não é fungo. A pergunta campeã na caixa de mensagens de qualquer especialista é sempre “o que eu passo para curar o fungo do meu cavalo?” E, na clínica do dia a dia, esse diagnóstico popular quase sempre está errado.
O que se vê com muita frequência são dermatites causadas por manejo deficiente e uso de produtos errados na pele do cvavalo. Some a isso as queimaduras por brachiaria e as fotossensibilidades que viraram crônicas por causa do diagnóstico de “achismo” e dos ‘tratamentos’ quebra-galhos químicos, que só agridem a pele.
Como saber se é fungo mesmo?
No Brasil, infecção por fungo de verdade é a exceção, não a regra. A micose verdadeira, a dermatofitose, existe e tem tratamento, mas é muito menos comum do que a fama sugere.
Quando tem crostinhas com pele seca por baixo, caspa e perda de pelo em placas quase sempre aponta primeiro para uma dermatite (inflamação). E 90% dos casos a causa é a agressão a essa pele com a destruição da microbiota saudável, que deveria defender a pele.
E a causa muitas vezes está em errosde manejo e uso de produtos inadequados no cavalo. Detergente, sabão em barra e shampoo clandestino, retiram a proteção e as bactérias e leveduras do bem que vivem ali no cavalo, ressecam, causam alergias e deixam a pele desprotegida. Rever a base do cuidado geralmente é suficiente.
Por que, no Brasil, quase nunca é fungo?
Porque o nosso clima favorece a bactéria espalhar muito mais do que fungo. Em regiões tropicais, úmidas e quentes, a incidência de infecção bacteriana de pele é muito maior nos cavalos.
O exemplo clássico é a dermatofilose, conhecida como “gervão”, causada por bactéria e não por fungo, e que costuma ser o agravamento de uma dermatite mal manejada. Aqui mora o erro fatal do tratamento: diante de uma infecção bacteriana, muita gente aplica shampoo ou pomada antifúngica, além de não tratar a causa da dermatite e reduzir a inflamação.
O que o iodo, a clorexidina e coisas como pinho sol realmente fazem na pele?
Eles queimam o tecido que você está tentando cuidar. Comecemos pelo mais grave: o uso de Pinho Sol em cavalo é um dos maiores absurdos do manejo, e vemos isso sendo propagado em muitos locais. É um desinfetante doméstico que nem é feito pra ter contato com pele viva. Na pele, age como agente cáustico e detergente, provocando queimadura química e destruindo justamente as células deveriam cicatrizar.
O restante do kit quebra galho de cocheira segue a mesma lógica de “quanto mais arde, mais está funcionando”, que é falsa. A integridade da pele depende do manto hidrolipídico e da microbiota saudável, e substâncias alcalinas ou oxidantes, como água sanitária e iodo em excesso, acabam com toda proteção.
A clorexidina, usada de forma repetida e concentrada, é citotóxica para os queratinócitos e fibroblastos, as células da cicatrização, e atrasa a regeneração das lesões. Todos vão causar mais inflamação na pele do cavalo e deixar ela mais frágil. O cavalo não demonstra mais arde, dói e incomoda muito. Agressivo não é eficaz. Secar e cauterizar a pele não é curar.
Vale registrar o que a referência clássica da dermatologia equina diz sobre o arsenal de cocheira: substâncias alcalinas ou oxidantes, como a água sanitária (a famosa quiboa) e o iodo, “estripam” a gordura protetora do manto hidrolipídico (Scott e Miller, Equine Dermatology, 2011). A limpeza que parecia desinfetar é exatamente o que deixa a pele sem defesa.
Por que os corticoides “atenuam” e depois pioram tudo?
Porque eles apagam o sintoma e desarmam a defesa. O corticoide desliga a inflamação e dá a ilusão de cura rápida: em dois dias a pele parece melhor. Só que ele também desliga a imunidade local. Se não atuar também nas causas da inflamação acaba sendo um paliativo arriscado.
O resultado pode ser uma dermatite simples que se transforma em algo crônico de meses. Corticoide tópico tem indicação, mas é decisão reservada e que precisa de conversa frança do veterinário com o tutor, com diagnóstico e tratamento de casusas. Nunca item de uso livre na farmacinha do haras.
Como tratar de verdade, sem destruir a pele do cavalo?
Tratando a pele como o ecossistema vivo que ela é: fortalecendo a a saúde em vez de gragilizar. A abordagem que resolve se apoia em três pilares:
Manejo de água e secagem: excesso de umidade sem secagem adequada deixa a pele com infiltrações; lavar demais com produto agressivo e deixar úmido é a receita da dermatofilose. Deixar o cavalo no pasto com suor seco nas costas também.
Limpeza que respeita o pH: em vez de sabão em barra e detergente, usar um shampoo bom formulado para a pele do cavalo, como o Shampoo All Soft Coco Nut, que remove sujeira mantendo a barreira e o manto hidrolipídico intactos.
Reparo da barreira: repor lipídios e acalmar inflamações, com ativos que a pele reconhece, é o que recompõe o manto e o microbioma para a pele voltar a se defender sozinha.
Os produtos da EQUI’B são dermocosméticos com registro MAPA e existem para se integrar o manejo com o seu veterinário, nunca para substituí-lo. Feridinhas que não fecham, lesão de pele que se alastra, febre, pús ou sinal de linfangite pedem avaliação profissional e, muitas vezes, tratamento sistêmico.
Dica extra: Como lidar com a teimosia, os mitos e as dicas erradas de manejo equino?
A gente que ama cavalo herdou uma lista de “receitinhas milagrosas de cocheira”, mas várias delas podem causar problema sérios. Antes de sair passando qualquer coisa no seu cavalo, pare, respire e procure entender melhor os efeitos.
Não é porque o tratador, o treinador ou o dono do haras diz que sempre usou algo, que vai ser bom. Na dúvida, se pergunte: se não é seguro para a sua pele, por que seria para a pele do cavalo?
Cuidar do seu cavalo do jeito certo, com dignidade e respeito não é frescura nem exagero.
É amor.
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Perguntas frequentes
Como sei se meu cavalo tem fungo de verdade?
Você não confirma no olho. Crosta seca, caspa e falha de pelo apontam mais para dermatite ou causa bacteriana do que para micose, sobretudo no nosso clima. O diagnóstico de dermatofitose se faz com raspado, cultura e exame do veterinário.
Posso passar iodo ou pomada de fungo por precaução?
Não é boa ideia. Se a causa for bacteriana, o antifúngico não resolve, e o iodo em excesso arranca o manto e mata a microbiota de defesa. “Por precaução” costuma cronificar a lesão.
Pinho Sol mata o fungo do cavalo?
Pinho Sol é para piso, não para peles. É cáustico para tecido vivo, causa queimadura química e destrói as células que cicatrizam. Não existe indicação de desinfetante para uso em animal, e é cruel.
Quando devo chamar o veterinário?
Sempre que a lesão não fechar, se espalhar, doer, vier com febre ou inchaço subindo pela perna. É o veterinário quem define o agente e a conduta terapêituca.
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